A defesa enfática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo fim completo do sigilo das investigações envolvendo o Banco Master abriu uma discussão que vai além do escândalo financeiro: afinal, a transparência defendida pelo chefe do Executivo deve valer apenas quando interessa politicamente ou precisa ser aplicada com o mesmo rigor dentro do próprio governo?

Nesta quarta-feira (9), Lula afirmou publicamente ser “urgente” a quebra completa do sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master e disse que a apuração deveria avançar “doa a quem doer”. O presidente também criticou o que chamou de vazamentos seletivos de informações do processo.

A defesa da publicidade dos autos é legítima e encontra respaldo no interesse público envolvendo um caso de enorme repercussão econômica, política e institucional. O problema surge quando esse discurso é comparado ao histórico de transparência da própria administração federal.

Durante o atual governo Lula, pedidos apresentados por meio da Lei de Acesso à Informação continuaram recebendo negativas fundamentadas na proteção de dados pessoais. Dados divulgados pela Controladoria-Geral da União indicaram que, somente em 2025, 77 pedidos receberam restrições associadas ao chamado “sigilo de 100 anos”. Embora esse número corresponda a uma pequena parcela dos mais de 122 mil pedidos respondidos naquele ano, a existência das negativas mostra que o mecanismo que Lula tanto criticou no passado não desapareceu durante seu governo.

Transparência quando interessa?

É justamente nesse ponto que surge a principal crítica política.

Quando a investigação envolve ministros do Supremo Tribunal Federal, autoridades, empresários e potenciais adversários ou aliados políticos, Lula exige que absolutamente tudo venha a público.

Mas, quando o questionamento recai sobre informações ligadas ao próprio Palácio do Planalto, o princípio da transparência nem sempre parece receber tratamento tão absoluto.

Um exemplo ocorreu com a agenda da primeira-dama, Janja Lula da Silva. Durante parte do atual mandato, houve cobranças para que seus compromissos oficiais fossem divulgados de maneira sistemática. A publicação de uma agenda própria só passou a ocorrer após questionamentos sobre a falta de transparência envolvendo reuniões, viagens e participação da primeira-dama em atividades governamentais.

Também houve críticas relacionadas à dificuldade de identificar de maneira detalhada determinados gastos associados a viagens e atividades do núcleo presidencial.

Isso não significa que as despesas da Presidência sejam totalmente secretas. Pelo contrário: o governo disponibiliza informações sobre diárias, passagens, notas fiscais e despesas de cartão corporativo. No entanto, parte desses dados aparece de maneira consolidada ou sujeita a restrições legais de segurança e proteção de informações pessoais.

A diferença é relevante.

Se Lula considera que o interesse público no caso Master justifica uma abertura praticamente irrestrita das informações, é natural que a sociedade cobre dele o mesmo padrão quando o assunto envolve a estrutura presidencial.

O discurso precisa valer para todos

A transparência não pode funcionar como ferramenta política de conveniência.

Se documentos relacionados ao Banco Master precisam ser divulgados porque “o Brasil precisa saber a verdade”, a mesma lógica deveria orientar, dentro dos limites previstos em lei, a divulgação de gastos públicos, viagens, encontros oficiais e compromissos de autoridades.

O próprio governo afirma oficialmente que a Secretaria de Imprensa da Presidência tem entre suas funções divulgar com transparência as ações e a agenda do presidente. O Planalto mantém agendas públicas com compromissos presidenciais, demonstrando que existe estrutura para isso.

Por isso, a discussão não deveria ser simplesmente sobre haver ou não informações publicadas.

A questão central é outra: qual é o grau de detalhamento e quais informações continuam sendo protegidas quando existe legítimo interesse público?

Caso Master transforma transparência em questão política

O caso Banco Master alcançou o centro da disputa institucional brasileira e passou a envolver diretamente o debate sobre Judiciário, Polícia Federal e eleições de 2026.

Partidos, autoridades e integrantes da própria Polícia Federal têm defendido a retirada dos sigilos, enquanto acusações de divulgação seletiva de informações aumentam a pressão sobre o Supremo.

Lula percebeu rapidamente o peso político do episódio e assumiu publicamente a bandeira da transparência.

Mas essa escolha também cria uma obrigação.

Depois de exigir que os outros Poderes abram suas informações, o presidente passa a ter ainda menos espaço para aceitar qualquer aparência de seletividade dentro do próprio governo.

Transparência não pode ter lado

Não existe transparência “de direita” ou “de esquerda”.

Também não deveria existir transparência apenas contra adversários.

Governos democráticos precisam compreender que o dinheiro público, as agendas oficiais e as decisões administrativas pertencem ao interesse da sociedade, e não aos ocupantes temporários dos cargos.

Lula está correto ao cobrar esclarecimentos completos sobre o Banco Master.

Mas, ao assumir essa posição, precisa aceitar a consequência lógica de seu próprio discurso: o mesmo padrão de abertura que exige dos ministros, investigadores e envolvidos no Master deve ser aplicado ao Palácio do Planalto.

Caso contrário, o discurso corre o risco de parecer menos uma defesa incondicional da transparência e mais uma defesa da transparência quando ela produz dividendos políticos.

E a sociedade brasileira já conviveu por tempo demais com governos que defendem a publicidade dos atos dos adversários enquanto encontram justificativas para preservar os próprios segredos.